Meu nome é....

       Saudações leitoras, turm@ que acompanha o blog Diário Virtual de Leitura!
      A postagem de hoje vem recheada de reflexão e poesia. O texto escolhido é o poema "Eu, etiqueta!" de Carlos Drummond de Andrade, escritor mineiro de extrema sensibilidade que soube muito bem registrar o Brasil de seu tempo. Várias obras do poeta foram traduzidas para o espanhol, inglês, francês, italiano, alemão, sueco, tcheco e outras línguas. Drummond foi seguramente, por muitas décadas, o poeta mais influente da literatura brasileira em seu tempo, tendo também publicado diversos livros em prosa. Para saber mais sobre o escritor acesse: http://www.releituras.com/drummond_bio.asp
      Destacamos a seguir o poema "Eu, etiqueta!" como expressão de alerta e reflexão sobre o consumismo desenfreado de muito tempo em nossa sociedade. Não deixe de comentar suas impressões sobre o texto.
       Boa leitura a tod@s!

 

EU, ETIQUETA

Em minha calça está grudado um nome
que não é meu de batismo ou de cartório,
um nome... estranho.
Meu blusão traz lembrete de bebida
que jamais pus na boca, nesta vida.
Em minha camiseta, a marca de cigarro
que não fumo, até hoje não fumei.
Minhas meias falam de produto
que nunca experimentei
mas são comunicados a meus pés.
Meu tênis é proclama colorido
de alguma coisa não provada
por este provador de longa idade.
Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,
minha gravata e cinto e escova e pente,
meu copo, minha xícara,
minha toalha de banho e sabonete,
meu isso, meu aquilo,
desde a cabeça ao bico dos sapatos,
são mensagens,
letras falantes,
gritos visuais,
ordens de uso, abuso, reincidência,
costume, hábito, premência,
indispensabilidade,
e fazem de mim homem-anúncio itinerante,
escravo da matéria anunciada.
Estou, estou na moda.
É duro andar na moda, ainda que a moda
seja negar minha identidade,
trocá-la por mil, açambarcando
todas as marcas registradas,
todos os logotipos do mercado.
Com que inocência demito-me de ser
eu que antes era e me sabia
tão diverso de outros, tão mim mesmo,
ser pensante, sentinte e solidário
com outros seres diversos e conscientes
de sua humana, invencível condição.
Agora sou anúncio,
ora vulgar ora bizarro,
em língua nacional ou em qualquer língua
(qualquer, principalmente).
E nisto me comparo, tiro glória
de minha anulação.
Não sou - vê lá - anúncio contratado.
Eu é que mimosamente pago
para anunciar, para vender
em bares festas praias pérgulas piscinas,
e bem à vista exibo esta etiqueta
global no corpo que desiste
de ser veste e sandália de uma essência
tão viva, independente,
que moda ou suborno algum a compromete.
Onde terei jogado fora
meu gosto e capacidade de escolher,
minhas idiossincrasias tão pessoais,
tão minhas que no rosto se espelhavam
e cada gesto, cada olhar
cada vinco da roupa
sou gravado de forma universal,
saio da estamparia, não de casa,
da vitrine me tiram, recolocam,
objeto pulsante mas objeto
que se oferece como signo de outros
objetos estáticos, tarifados.
Por me ostentar assim, tão orgulhoso
de ser não eu, mas artigo industrial,
peço que meu nome retifiquem.
Já não me convém o título de homem.
Meu nome novo é coisa.
Eu sou a coisa, coisamente.
 
ANDRADE, C. D. Obra poética, Volumes 4-6. Lisboa: Publicações Europa/América, 1989.

Comentários

  1. O poema deixa claro a vontade excessiva de consumo pelos produtos que estão na moda.
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  2. O texto relata bem o consumismo. Muitas vezes nós nem sabemos o que estar estampado naquelas roupas e mesmo assim fazemos questão de vesti-las só por questão de moda. Hospedagem 2

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  3. Gostei bastante do poema, pois relata a nossa realidade e de certa forma um "problema". As pessoas fazem questão de vestir ou calçar algo pelo simples fato de estar na moda, mesmo que n agrade, vai comprar pq todos estão usando e pq está na moda, e dai surge o consumismo que é um problema gravíssimo.
    Hospedagem 2

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  4. Ótimo poema, gostei muito relata a realidade que está em nossa volta, o consumismo que ainda é um assunto muito delicado de se discutir
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  5. Este comentário foi removido pelo autor.

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  6. interessante e educativo, pode se aprender muito com esse poema.Fala sobre etiquetas e marcas de roupas que fazem propaganda que fazem as pessoas terem a necessidade de comprar esses produtos.

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  7. interessante e educativo, pode se aprender muito com esse poema.Fala sobre etiquetas e marcas de roupas que fazem propaganda que fazem as pessoas terem a necessidade de comprar esses produtos.

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  8. Este comentário foi removido pelo autor.

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  9. Realmente admiro o autor por um poema tão bem retratado de o que é o consumismo, a globalização faz com as pessoas, mostrando que não vestimos nada além de marcas, esquecendo o conforto.
    ~ Hospedagem 2
    ~ Têmily Aires

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  10. Fica bem claro q hoje as pessoas na maioria das vezes n compra algo na essência do gosta do protudo e sim pelo fato de seguir uma moda.
    Hospedagem 2

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